movimento nova cena

Reunião com Prefeito Márcio Lacerda – Cultura e Juventude

Posted on: 15/08/2011

No dia 08 de agosto, a convite da ONG Contato – Centro de Referência da Juventude, diversos movimentos, associações, coletivos e lideranças da Cultura e da Juventude, participaram de uma reunião com o Prefeito de Belo Horizonte, sr. Márcio Lacerda, para discutir a construção de políticas específicas para as áreas e iniciar um diálogo com o gabinete do prefeito sobre os temas. A fala do Movimento Nova Cena pautou-se no texto a seguir:

Sr. Prefeito Márcio Lacerda,

Gostaria de começar dizendo que nós – a Cultura e a Juventude – conhecemos, reinventamos e dialogamos com essa cidade: seus problemas, suas belezas, suas terríveis injustiças, sua vida ordinária e sensível. Nós caminhamos pela cidade a pé, de carro, de ônibus ou de bicicleta. Nós conhecemos as pessoas que vivem essa cidade: trabalhadores e trabalhadoras, excluídos e excluídas, intelectuais ou crianças. Nós – agentes da Cultura e da Juventude que representamos aqui hoje – realmente pensamos, agimos e criamos Belo Horizonte.

Eu sou ator. Então, falo em nome de alguns artistas e agentes culturais de BH. Pessoas, grupos, coletivos, que sentem que a Cultura é menosprezada nas decisões do seu governo, que vêm um vazio conceitual na política para a cultura do município, e uma morosidade nas iniciativas e nas ações da prefeitura relacionadas à prática cultural;

Portanto, falo em nome de profissionais que não vêm propostas concretas de projeto ou de planejamento para a área da Cultura; de artistas que tiveram que gritar para assegurar o FIT, a desapropriação do LapaMultishow e o Prêmio Cidade de Belo Horizonte (gritar para não perder); e do público da cidade, que não tem uma rede de equipamentos culturais (centros de cultura, bibliotecas, teatros públicos, museus) condizente com a diversidade cultural de BH;

Falo em nome da cultura hip hop, que quer permanecer no viaduto; dos banhistas da Praia da Estação; dos artesãos da Feira Hippie e da Praça 7; dos foliões do Carnaval de Rua; e dos freqüentadores de bares, que querem permanecer nas ruas, a rua é o espaço cultural por excelência!;

Falo também em nome de cidadãos que temem perder nosso patrimônio coletivo para a especulação imobiliária ou para a higienização social. Cidadãos que querem preservar o patrimônio simbólico da cidade e que consideram comum, de todos, aquele espaço que é público. Cidadãos que defendem o Mercado do Cruzeiro, a Rua Musas, a Praça da Estação e os campos de futebol dos bairros. Conviver nas ruas, nas praças, nas calçadas, é produzir cultura, trocar experiências subjetivas, por isso falo em nome deles também;

Assim como conviver, morar ou habitar um espaço com dignidade também é uma prática cultural. Por isso, falo também em nome de moradores de vilas e favelas que não aceitam omissão de assassinatos nem violência policial para proibir manifestações e festas populares; falo em nome de famílias sem-teto e dos desalojados da Copa, milhares de pessoas ameaçadas de despejo; e da população em situação de rua, que tem perdido covardemente seus pertences pessoais para a fiscalização da prefeitura;

Em nome dos usuários do transporte coletivo, que sofrem com desconforto, alto custo e superlotação; e do transporte alternativo, que se espremem entre carros. A forma e o ato de deslocar-se são determinantes nas relações de troca, portanto determinam a Cultura, e esses usuários não acompanham políticas estruturantes para a mobilidade urbana;

Falo em nome dos profissionais da educação infantil, que são Professores por direito e por afeto, formadores culturais de nossas crianças; e dos alunos das escolas públicas municipais, que, infelizmente, terão que provar “inocência” diariamente, passando seus pertences por detectores de metais;

Falo, humildemente, em nome de cidadãos que apanham da guarda municipal em manifestações pacíficas e alegres. Manifestar-se é um direito e expressar-se é cultura! Esses cidadãos sofrem violência de uma instituição que deveria proteger o patrimônio municipal. E a cultura é nosso maior patrimônio, prefeito.

Como o senhor vê, a Cultura e a Juventude são grandes, estão em toda a cidade, ouvimos todas as vozes com que cruzamos. Sabemos o que acontece em nossa cidade, conhecemos e vivemos seus problemas e queremos participar, propor soluções, discutir prioridades. A Cultura e a Juventude têm reivindicações objetivas, mas também querem colocar discussões.

Mais do que uma política para os jovens, a juventude e a cultura querem uma Política Jovem: uma política que busque a convivência entre diferentes e o diálogo para a construção coletiva; que se baseie no respeito à dignidade da pessoa e na troca plural de experiências; que combata a idéia de pobres isolados na periferia versus ricos limpos e higienizados na reformada zona sul; que busque um crescimento sustentável, respeitável e inclusivo; que não se acostume com a injustiça, mantenha força para se indignar, e se revolte com o desrespeito ao outro; uma política que busque um diálogo real, produtivo e sincero, pois reconhece no Outro a bela possibilidade de refazer, repensar e transformar suas idéias.

Uma política jovem, direcionada a uma juventude que sabe que crescer não é necessariamente, oprimir, mas incluir, ampliar, repartir idéias, cooperar. E que aprendeu com a música que a praça é do povo e isso não se discute!

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5 Respostas to "Reunião com Prefeito Márcio Lacerda – Cultura e Juventude"

E o prefeito respondeu alguma coisa?

Sim, a mesma pergunta: o que foi que o prefeito respondeu?

Não estava lá, mas um passarinho me contou que a resposta dele foi a seguinte:
“conclua, por favor” antes mesmo queo texto chegasse ao fim…

Então Manuel, rolou esse momento. Mas nós concluímos!

Didi e Garrocho, como já tem um tempo, não vou repetir as MESMAS palavras que o Prefeito, mas a reunião foi mais ou menos assim: o Prefeito abriu dizendo que estava querendo mudar a política para juventude e cultura, que gostaria de se aproximar mais desses “setores”.

Logo depois eu li o texto. E sobre ele, o prefeito disse mais ou menos o seguinte: que o objetivo da reunião era discutir políticas específicas p/ cultura e juventude, e que as questões colocadas no texto eram PARTIDÁRIAS [termo dele] e que não eram demandas de todos os presentes. Depois, ressaltou o fato de sermos artistas de teatro. E que gostaria de esclarecer o episódio do FIT. Segundo o prefeito, a tentativa de cancelamento do FIT no ano passado teria sido por conta de um PROJETO PESSOAL [também termo dele] do Carlão (ex-coordenador do festival). Citou uma entrevista do Carlão, em que ficava claro que ele tinha um “projeto pessoal” com o FIT – e não um projeto público. Disse que esse episódio precisa ser superado, até porque o Carlão já se afastou do cargo.

Bom, daí várias pessoas falaram. E foi muito legal porque algumas delas disseram estar de acordo com nosso texto, reforçando que essa posição não era isolada. Nesse sentido, acho que conseguimos marcar que essa era uma fala da cultura e da juventude da cidade.

Acho relevante dizer também que no final da reunião, antes de ir embora, o Prefeito afirmou que concordava conosco sobre a ocupação dos centros culturais. Disse que a ocupação desses espaços era INDECENTE [termo dele]. Que algumas pessoas já o procuraram, sugerindo montar academias de ginástica nos centros culturais e que ele não permitiu.

Depois disso, o André Rubião apresentou o projeto do Centro de Referência da Juventude, que será construído no espaço do Miguilim. Não pude ficar pra ver essa apresentação… mas conheço um pouco do projeto, que é uma promessa de campanha do Prefeito.

Algumas considerações minhas:
• Não milito em nenhum partido político.
• É inegável que o Carlão foi primordial na construção e consolidação do FIT como um dos maiores festivais PÚBLICOS de teatro da América Latina.
• Ouvir do próprio Prefeito que uma política da Prefeitura é INDECENTE é meio estranho… Mostra que essa política é inexistente – e que não há vontade nem interesse político em consolidar ações para a Cultura.
• Vocês conhecem esse projeto de construção do Centro de Referência da Juventude? Prefiro chamar de Shopping Jovem…
• Parece que rolou um bafafá na Conferência Municipal de Juventude. O pessoal lançou um manifesto. Ficaram indignados com a forma como as coisas foram conduzidas pela administração. E ressaltaram – mais uma vez – a falta de diálogo.
• Não sei se vocês sabem, mas a PBH quer retirar o Centro de Referência da População de Rua do galpão em que ele está, no Barro Preto. Vai destruir o Miguilim, erguer esse “shopping” e despejar os moradores de rua! Eu hein! Fora!

um abraço,
gustavo

Impressionante! Essa tentativa de desqualificar a crítica ou o dissenso como algo partidário, é um velho truque. Sim, um álibi recorrente. Como se pudesse haver democracia se e somente se os interlocutores fossem considerados “em acordo prévio”.

A total ausência de projeto social inclusivo (e cultural idem) combina com o projeto político de desqualificação dos interlocutores e agentes sociais em dissenso.

Trata-se de “caso pensado”. Somente é legítimo o que não se opõe! E o que não está de acordo – com as ações em curso – é, necessariamente, visto como movimento de “oposição’ ao governo. Não acreditem que isso é apenas uma atitude pessoal do prefeito – é instrução bem trabalhada! E tem “esquerda” cooptada nisso… Entendem muito bem a “voz” consolidada de uma mídia submissa e de uma média pavimentada.

Procedimento também utilizado com os ocupantes das Torres Gêmeas, quando os interlocutores não foram recebidos.

O modelo está montado: repressão qualificada, desqualificação de qualquer interlocução em dissenso, propaganda oficial (incluindo a tal “agenda positiva”).

Sim, lá vem chumbo…

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